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Conto do livro Caderno de Ontem






Maria

“Na noite profunda e escura da alma,
são sempre três da madrugada.”
F.Scott Fitzgerald


“Em cada nota de dinheiro ganho pela dona desse lugar: há uma lágrima nossa: o choro pela unha não pintada, por um novo dia sem poder combinar a roupa ou pela visita ao cabeleireiro, outra vez, desmarcada. Se não fosse a vaidade, eu não estaria aqui”, ela disse, alisando ostensivamente, os cabelos.

Muitas vezes, eu fui convidado para sua festa de despedida. Não agüento mais esse lugar, eram suas palavras. Um homem apaixonadíssimo viria na sexta ou sábado e esse seria seu último dia.
Semana após semana: ela ainda estava ali.
O amor tem dessas coisas e também as têm: a conveniência, o cinismo e a deslealdade.
Nem sempre ela me cumprimentava, mas quando o fazia, era com intensidade e forma peculiar: uma demonstração de que antes estava impedida: algum cliente, álcool demasiado ou um breve esquecimento.
A meia-luz do lugar revelava, rostos memoráveis, esses que a tristeza arrebata, sem conformidade.
A resistência só os fazia mais tristes e ausentes.

Julio Almada do Livro Caderno de Ontem


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