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Poema da Face
                                                                         Para Serena Coltrane-Briscoe

1

Eu sou homem que cala
Sei que sou fuga e solidão
Mas disse que calo
E nem isso faço

Corro para pegar as palavras
Até a mim embaraço
Do que fujo?
Do que calo.

Queria dar nome às iras
Retirar-me de minhas ilhas
Gritar o nome do que sou
Seja lá o que for.

2

Encarcerei o cão
Ouço-o afiar
Os dentes
Na grade do meu coração.

Ouço-o forçar as patas
E o barulho do que ele é
Cala o ruído do que sou
Não o sinto, ouço-o.

É de ouvido o meu ser
Com ele. É de ouvir
E de ensurdecer.

Encarecerei o cão
E não sei
Encarcerar a saudade
Nem a lembrança
Nem a fome de justiça
Nem o olhar instigador.

Esses que falo
São cães soltos em mim
Nas mãos nos lábios nos olhos.

Há um cão que os devora
Os mastiga os consome
E quer libertar o
Do meu coração.

Há um cão enorme de
Todas as formas e nomes
Se queres lhe digo
Muitos o chamam solidão.

3

Para que me serve dizer
Sou assim ou fui
Olho e nem isso vejo
A verdade de ver
Ou estar entretido
Entre a imagem
No olho retido
O seu ver e não ver
O visto.

Sou melhor, barulho, de
Folha entre a relva e
Vento de muitas idades
O sem jeito da ventania
E o rubor forte da tarde
Ou o grito esvaindo da noite.

Sou melhor nada disso
Sempre um olhar ruboriza
Todos os meus sentidos
Um novo olhar com a cor
Ansiada por minhas papilas
A cor do mundo quando
O mundo assim permite,
Acende a percepção aflita.
Sou de novas a cada dia
E sou assim muito de outras.

4

Tinta suando
Tinto o vinho
Que sangro
Sangro o sonho
Vencido


Os gesticulares para chamar
As flamas que me queimam
São flores bem ao vento
Das buscas do silêncio.

Esses que desconheço,
Em mim muito romper de pratos
Há. Muito gritar de vento
Na janela.

5

Amor a palavra não deve faltar.
Este poema é sobre amor?
É sobre palavra que vou falar?
Amor e palavra
Amor é palavra?
Qual amor?
A palavra Amor.
Que palavra?
Amor me faltam palavras.
Amor
Amor, amor, amor
Difícil dizer
Não acreditar.

6

Hoje estou feliz
Porque estou triste
Mas não foi sempre assim
Tive amanheceres de estar
Triste porque triste estava
E a felicidade era olhar
O brilho de uma estrela morta.

Hoje estou triste
Sem entristecer
E assim estarei
Por quanto durar
O desejo de estar.
Não é um modo de ser
Nem todo modo que há
Só a luz da estrela
Bela dentro de mim.

7

O número perfeito é contar de dias,
Nenhum. Para hoje tornar-se
O não quisto passado.

O não adeus e o inevitável
Dizer, quando aqueles dias?


Sou poeta para explodir depois das explosões
Nem triste nem alegre nem fato
É antes algo do universo inexplicado
Para não esgotarem-se nunca as respostas.

E o que dizer do poema – fagulha ou rastro?
Cheiro inquietante de queimado e desordem?
Poesia explode os quartéis dos braços
E ao ver o sem sentido
Do que penso que conheço,
Junto as mãos os sorrisos o molhar da chuva
E sou fim, meio, começo.

Julio Almada do Livro Hora Tenaz

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