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Serpente O nosso amor era vertigem Pantanoso e desesperado Fez do fel o doce E do desfigurar a esfinge Os teus cabelos alisavam meu desgosto A língua palpitante e confundida Bebeu do todo embriagada Tempestade incessante as veias A tua face nunca ruborizada. Julio Almada, Do livro Hora Tenaz
lanterneiro é verdade, a vida é um troço de doer. dói, meu caro, dói, sim senhor, dói como um guarda-chuva aberto dentro do estômago, como uma ave no éter do petróleo, como um galo no ártico. dói como doem as pevides dentro da fruta, como dói o corpo dentro do quarto, como deus na eternidade das coisas que nunca existiram. atino em eufórica sensação de escombro: estar vivo é mais importante do que ser feliz! e não obstante sermos – entre a dor da morte e a dor do parto – este buquês de dores, jamais aceitaremos o éter na veia, o vaso de águas enfermiças, as roças de lápides e relógios, o repouso de quem cortou os pulsos. nossas vísceras são focos de incêndio. e se algum lugar de nossa carne transparente erguermos uma nave e um rito, não o faremos para o sofrimento, senão para que, antes de nos espojarmos nos degraus, brindemos a nossa próxima alegria Rodrigo Madeira do Livro Sol sem Pálpebras
Meninos e Meninas Sou de poucas palavras. Falo por demais. Calo, as que falavas. Falo até calar. Canso de cansado. Canso por cansar. Falo e já não falo. Falo que não falas. Falo que não calas. Fala que não falhas. Se falo, falho. Se falho, Por que falas? Se calas, Não quero. Se falas, Não quero. Por que calas? Por que falas? Aço, meu silêncio. Aço, teu falar. Aço, fundo corte. Aço, um brilhar. Fala - me Átrio e ampulheta: Nosso falar. Nosso calar. Calado falas. Falando, calas? Calada, falo. Falando, calo? As flores várias. Sigo a espinhar - me. 02/12/2005 Livro dos Silêncios
Ex - tratos fera O frio que me congela, não é o inverno. Inverno aqui, verão, Em outras terras. A Terra que me preservam, Não dá colheitas. Colheitas são dos que prosperam. Julio Almada, Instantâneo Enlace
Todo Dia Se é para viver: tudo! Antes que a morte nada, Nos deixe além do defunto, A espiar a alma em retirada. Julio Almada
“Ao ler, eu procuro um respiradouro...Se meu olhar escava entre as palavras, é para tentar discernir o que se esboça a distância, nos espaços que se estendem para além da palavra fim” (Calvino, Ítalo. 1999. Se um viajante numa noite de inverno . Trad. N. Moulin. São Paulo: Companhia das Letras). O livro Poemas Mal_Ditos, do poeta Júlio Almada proporciona efeitos múltiplos. A cada nova poesia, a dualidade dos sentidos aflora, se avoluma e transborda em seus infinitos significados. A priori, o leitor mais precipitado, ávido por leituras superficiais, pode achar que o livro é construído em torno de clichês cansados. Mas, não se enganem, é ao contrário, construído com fervor, onde a intertextualidade com seus mestres, encena o jogo das palavras da liberdade e dos signos. Em cada verso há um pouco da medula óssea do autor. Suas palavras compõem, decompõem e recompõem sua voz lírica na árdua busca do fazer poético e de si mesmo. A angústia, a dramatici...
Tigre de Asas A noite é veloz e esquecimento. A Flor que me anima – Esperança. A alma é hora triste, desencontrada, E eu, o que nunca sabem. Andanças minhas não faces. Lembranças as nunca fases. Abraços de fugazes Esperares. Ruídos amassando folhas, Amares invadindo ruas. Fraquezas de desenlace, Soturnas e nuas fugas. As vidas que ocultasse, A dor que se encondesse, O beijo desanuviado, O triste de esquecer – se. Amor como não sabem Chamá-lo de outros nomes? Se, quando nas praças, o encontro, Não sei como chamá-lo. Se quando a relva é triste, Se quando já chorei, O amor se existe, ao longe me olha e finge Nunca saber, O doce dos meus olhos, O quente dos meus lábios, O aroma dos meus fortes Silêncios de enternecer. Amor já me tocaste, Amor triste notar Idas de não voltares O Nunca esquecer. Teus lábios, despetalares, As pétalas do meu querer. De que me vale amar-te? De que me valeu dizer? Que amor há de faltar-te? Se o meu não faltará Que flor há de tocar-te? Se a minha há de murchar. N...
Desclassificado Hoje amo A mulher pelo brinco. A mão do bolso é a mesma que acaricia. Ela veio no ônibus Foi embora domingo. Casamos de véu E granada. Meus passos Na calçada Serão os nossos filhos. Julio Almada, Do Livro Poemas Mal_Ditos Mais Textos: www.julioalmada.net
Via Cruzes: à Machado Toda cidade que dorme: merece seus pesadelos O desgosto enche copos E esvazia garrafas A dor desce logo Arranhando as vidraças Não fica pedra sobre pedra Na calçada A rua deserta flerta Com meia dúzia de corpos Talvez alguns poetas Ou vampiros assustados Não fica pedra sobre pedra Na calçada Brincar com os amigos Termina em um ouvido atordoado Nem todos que se abraçam estão já perdoados Não fica pedra sobre pedra Na calçada Amanheço no centro de triagem Do inferno: Dois olhos famintos No álcool mergulhados Não fica pedra sobre pedra Na calçada Saio dessa vida, não mais volto Querem brincar de morrer: morram Pareço mais preso do que solto Os que ainda puderem me socorram. Julio Almada, Poemas Mal_Ditos
Farpas Faca por aqui não é Arma branca É arma branda. Armados de Tenazes Dissimulares Com garras de angústias E sombra nos olhares Os outros e os outros Em mim combatem: A luz da minha sombra.
POEMA PARA SER BREVE Amor nunca é veloz de forma alguma. É feito de escombros lentos, forjados inteiros de uma ranhura. Profundo em rasos tempos, é tudo: em pouca textura. Corte na cicatriz vindoura seca a água que nos sacia. E quando o olho dilacerado vê as ruínas já sao outras coisas: Uma flor que nao disse primavera; Um céu onde se pousa; braços ruidosos como laços; olhos com a pele de uma lâmpada; O que era eu: um adeus breve. O que eras tu: nova mariposa. Julio Almada
Sonrisa de palos "Os espinhos que me feriram foram produzidos pelo arbusto que plantei. (Byron)" Era el tiempo de acostarse la ventolera De callar los ruidos de los palos De huir los cachorros de las fieras. Polvorientas rusgas mis rasgos Y el espejo no me las mostraba Juan ni nadie las veia Y yo no me acostumbrava. Era casa submersa: mi estar en silencio. Submergida entre navios y piedras En la mar oscurecida. De vasos y jarros Eran raros mis ratos De alegria. Más bien los tenia En un huequito de sueño En la mirada vacia. Julio Almada, Do Livro Arde
Faltando um luar A indiferença dela É diferente. Parece soda e ácido Mas não passa: De um rosto transparente, Que abandonou os olhos E o coração, Ao desconsolo da mente. Julio Almada, Poemas Mal_Ditos
Poema do Esconde-Esconde Para Roberto Portugal Alves(In Memorian) 1 Ensina-me a calar. Ensina-me na janela do dizer O que se vê E faz cessar O que se fala. Ensina-me a esquecer. Ensina-me A desfazer A sina de não ser O que eu sou. 2 A sepultura que te mostra. A sepultura que te esconde. A vazia mesa posta. A loucura da minha fronte. A vida e sua morte inesperada. A morte e sua vida desesperada. 3 O recinto em que me inventas É o intento de conter-me Nesta flâmula de tempo Em teus lábios cinzentos. 4 Lua transposta: Mar refletido, semente de pedras, Lagos infindos, verbos inertes, pó na estrada. Lua transposta e do medo, as garras. O medo transposto: metamórfico. 5 Separo os grãos do prever do meu destino Separo o fraco café do leite Me separam, a água e o azeite Me invento no mundo, clandestino. 6 Poesia urbana: veloz, dissipada, bípede, infame, Imprópria, inata, ciliar, banal, morrendo de Muitas mortes. 7 A página em branco contém: O desejo franco de possuir datas. Não um número e uma...
Cicuta para dois No fim da maçã: a semente. Dentro de nós um pouco, De termos ouvido sempre: Vociferar um amor louco. No escuro do quarto: a neblina Da memória: puxa os lençóis. Não passem frio: menino e menina. Retidos na retina ainda: Nós. A corda do destino: branca, Nossos pés juntos: cegou. Hoje nos falta o que restou: O baile ensurdecedor da lembrança. O aroma quente do chamado amor. E o abraço: que a solidão estanca. Julio Almada, Poemas Mal_Ditos
Poemas Mal_Ditos Um poeta em seu reino dos céus Tem sempre esse inferno particular: Se cortando na sutileza dos véus Olha nos olhos do que há para revelar Vê claro o que claramente oculto É o mais escondido dos tesouros. logo o acusam de estar em surto ao dançar com a alma dos touros. Chega de promessas do paraíso repleto de prazeres artificiais. Escrevo uma dor ácida e aviso: sou o menos morto dos mortais! Vestido com a ousadia nua: Como flor de lótus nos funerais. Quero a tinta que a beleza sua E deitar vivo, aonde a vida jaz. Julio Almada, Do Livro Poemas Mal_Ditos
Amor a dentadas Contigo já nem sei mais começar. Atropelados todos os meios Desisti de ser inteiro. Me mordo em sonho quase sempre: Destroncando o curso na montanha Do que era rio e hoje é veio. Só bebo dessa sede que em mim Com fogo congelas: Por ter os lábios e a língua feitos Pela metade e perdidos estarem Na polpa de tua pele como sementes. É dia de arrancar unhas curtas E arrastar o barulho das luas: Para difamar o amor que me engana E mostrar que corte de pedra não é Dor. É só uma carícia de quem carece De outras suavidades. Julio Almada, Do Livro Poemas Mal_Ditos
Parte arrancada O ódio bebo de dentro pra fora. O medo bebo de fora pra dentro. De noite não é o olho que chora: É o estouro da represa do tempo. meus monstros ainda os vejo; Eles ainda me apagam sempre; Mas agora só olho o presente, me achando de novo no espelho. nunca deixei de ser muitos: aqueles muitos que eu não era: os espanco onde antes houvera: morte sem vida sem primavera: delirios e pesadelos abruptos. E renasço da flor de meus lutos. Julio Almada, Do livro poemas Mal_Ditos